A história das marionetes

Praticamente todas as culturas humanas inventaram, de forma independente, alguma maneira de fazer uma figura inanimada se mover diante de um público. Essa recorrência é o fato mais interessante da história das marionetes — e o mais difícil de explicar.

1. Origens: o objeto articulado antes do teatro

Antes de existir teatro no sentido moderno, já existiam figuras articuladas. O exemplo mais citado é uma figura masculina de marfim de mamute encontrada em Brno, na atual República Tcheca, atribuída ao Paleolítico Superior e datada em torno de 26 mil anos: os membros foram esculpidos separadamente e apresentam perfurações que permitiam a junção móvel. Não se sabe se ela era manipulada diante de espectadores ou usada em ritual — mas a intenção de articular uma figura humana é evidente.

No Egito Antigo há estatuetas de madeira com membros móveis acionados por cordões, e no mundo greco-romano os neurospasta (literalmente "puxados por cordas") aparecem em referências textuais: Heródoto descreve figuras móveis em procissões, e Platão, n'As Leis, usa a imagem do humano como boneco puxado por fios divinos. Aristóteles, no Movimento dos Animais, compara as articulações do corpo ao mecanismo dessas figuras. São menções indiretas, e é preciso cautela: elas provam que o público conhecia o dispositivo, não que existia um "teatro de marionetes" organizado como o entendemos hoje.

Figuras antigas de terracota com membros articulados
Figuras antigas de terracota com membros articulados. Ver créditos de imagem.

2. Ásia: as tradições mais elaboradas do mundo

Wayang Kulit (Indonésia)

O wayang kulit é um teatro de sombras executado com figuras planas de couro perfurado e pintado, articuladas nos braços por hastes finas de chifre. Um único artista, o dalang, manipula todas as figuras, narra, faz todas as vozes e comanda a orquestra de gamelão, em sessões que tradicionalmente atravessam a noite. O repertório vem sobretudo do Ramayana e do Mahabharata, adaptados ao contexto javanês. A UNESCO inscreveu o wayang na lista do patrimônio cultural imaterial da humanidade em 2003 (proclamação incorporada à lista representativa em 2008).

Figura de couro recortado do teatro de sombras Wayang Kulit
Figura de couro do teatro de sombras wayang kulit. Ver créditos de imagem.

Bunraku (Japão)

Formalizado em Osaka no século XVII, o bunraku (nome moderno do ningyō jōruri) é provavelmente a técnica de manipulação mais exigente já criada. Cada boneco principal, com cerca de um metro e vinte, é operado por três manipuladores visíveis: o omozukai comanda cabeça e braço direito, o hidarizukai o braço esquerdo, o ashizukai os pés. Os dois auxiliares vestem preto e capuz, convenção que o público lê como invisibilidade. A narração cabe ao tayū, acompanhado pelo shamisen. Levam-se décadas para chegar ao posto de manipulador principal — a hierarquia de aprendizado é rígida e explícita. O bunraku também integra a lista da UNESCO desde 2003/2008.

China, Índia e Vietnã

A China possui tradições paralelas de teatro de sombras (piyingxi) e de bonecos de luva de Quanzhou, cuja destreza manual é notória. A Índia mantém o kathputli do Rajastão, marionetes de fios com poucas cordas e movimento extremamente vivo. O Vietnã desenvolveu algo sem paralelo: o múa rối nước, teatro de marionetes na água, em que os manipuladores ficam submersos até a cintura atrás de uma cortina e comandam os bonecos por varas longas sob a superfície de um tanque ou lago — uma solução nascida das aldeias alagadas do delta do Rio Vermelho.

3. Europa: do sagrado à feira

Na Europa medieval, figuras móveis apareciam em contexto religioso, encenando episódios bíblicos e vidas de santos. A etimologia mais aceita para "marionete" vem daí: do francês marionnette, diminutivo de Marion, ele próprio diminutivo de Marie — provável referência às pequenas imagens da Virgem usadas nessas representações.

Com o Renascimento e a Commedia dell'arte, a marionete migra da igreja para a praça. Pulcinella, personagem napolitano de nariz adunco e temperamento anárquico, atravessa a Europa e se transforma no Punch inglês. O primeiro registro conhecido de um espetáculo de Punch em Londres está no diário de Samuel Pepys, em maio de 1662, no Covent Garden — data hoje comemorada como aniversário do personagem. O formato Punch and Judy que sobreviveu usa bonecos de luva, não fios.

Na Sicília, o opera dei pupi encena os ciclos carolíngios — Orlando, Rinaldo, batalhas contra os sarracenos — com marionetes pesadas, armadas em metal, comandadas por uma haste rígida presa à cabeça e por um fio na mão da espada. É teatro de longa duração, episódico, quase uma novela em capítulos. Também reconhecido pela UNESCO como patrimônio imaterial.

Marionete siciliana de armadura, do opera dei pupi
Marionete siciliana armada, do opera dei pupi. Ver créditos de imagem.

Na Boêmia, a marionete assumiu função política: durante o domínio dos Habsburgo, quando o teatro em língua tcheca era restringido, companhias itinerantes de marionetistas continuaram apresentando em tcheco — o teatro de bonecos era tolerado por ser considerado entretenimento menor. Essa tradição sustenta até hoje a força da escola tcheca, e o teatro de marionetes de Tchéquia e Eslováquia foi inscrito pela UNESCO em 2016.

4. Brasil: mamulengo e as formas populares

No Brasil, a forma popular mais consolidada é o mamulengo, teatro de bonecos de luva do Nordeste, com núcleo histórico em Pernambuco. O espetáculo é improvisado sobre estruturas fixas de enredo, com humor corporal, sátira social e diálogo direto com o público; o mestre mamulengueiro trabalha atrás de uma empanada acompanhado por músicos. Personagens como Benedito e Simão são arquétipos reconhecíveis em qualquer apresentação.

Variantes regionais recebem outros nomes — babau na Paraíba, cassimiro coco no Rio Grande do Norte, João Redondo em partes do Nordeste. O mamulengo foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan. Em paralelo, o Brasil desenvolveu no século XX uma cena erudita e contemporânea de teatro de formas animadas, com forte produção acadêmica — ver a Biblioteca.

5. Século XX e hoje

O século XX tirou a marionete do lugar de "teatro infantil". Escolas de manipulação profissionalizaram-se, festivais internacionais se consolidaram, e a UNIMA (Union Internationale de la Marionnette, fundada em 1929) passou a articular a categoria mundialmente. No cinema e na televisão, técnicas de animação de bonecos derivadas do ofício sustentaram produções inteiras. Na cena contemporânea, a manipulação à vista — em que o público vê o manipulador, herança direta do bunraku — tornou-se linguagem corrente, inclusive em grandes montagens teatrais.

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marionetes-antigas.jpg Composição de quatro imagens que documentam antigas figuras e bonecas articuladas: (1) uma figura de terracota grega-coríntia com membros articulados, do século V a.C.; (2) uma boneca grega de terracota, de aproximadamente 500–400 a.C., da coleção da Getty Villa; (3) uma figura de argila ática, de aproximadamente 350–325 a.C., representada segurando crotalos; e (4) bonecas de argila com membros móveis (neurospasta) da antiga Corinto, do século V a.C. (1) The Metropolitan Museum of Art, objeto 44.11.8; (2) Dave & Margie Hill / Kleerup, Getty Villa Collection; (3) Egisto Sani, fotografia de uma figura de argila ática, Musée du Louvre; (4) Anima de Barro. (1) Domínio Público; (2) CC BY-SA 2.0; (3) Alguns direitos reservados — confirmar a licença específica antes da publicação; (4) © Anima de Barro — reprodução, publicação ou modificação somente com autorização prévia por escrito.
marionete-wayang-kulit.jpg Figura de wayang kulit de couro de búfalo que representa Patih Pragoto, o ministro-presidente de Ngastima, pertencente à tradição do teatro de sombras de Java. Número de inventário TM-1772-696. Wereldmuseum / antiga coleção do Tropenmuseum, TM-1772-696. CC BY-SA 3.0 — atribuição: Collectie Wereldmuseum (v/h Tropenmuseum), part of the National Museum of World Cultures.
marionete-siciliana.jpg Pupi sicilianos, marionetas tradicionais do teatro popular da Sicília, fotografados em contexto relacionado com a apresentação e a tradição cultural. Angela Sciortino / PxHere. CC0 — Domínio Público. Atribuição não obrigatória.

Referências

Este texto se apoia sobretudo em Henryk Jurkowski, A History of European Puppetry; Bil Baird, The Art of the Puppet; Ana Maria Amaral, Teatro de Formas Animadas; e nas fichas de patrimônio imaterial da UNESCO citadas ao longo do texto. A lista comentada está na Biblioteca.